A maneira de nascer é mesmo importante? Maternamos entrevista a doula Milena Seko, do Gesta Maringá | Maternamos
maternamos-entrevista-doula-milena-seko

A maneira de nascer é mesmo importante? Maternamos entrevista a doula Milena Seko, do Gesta Maringá

12039390_1165417580153513_1298324213325818047_nExistem muitas explicações para o que acontece conosco depois da morte – e escolher uma das teorias depende da fé de cada um – mas uma coisa é certa: todo mundo já parou para pensar no que ocorre no fim desta vida. Mas e o início da vida?

O que acontece depois que nascemos? De que forma “aterrissamos” nesta Terra, que mensagens recebemos, qual a leitura possível de se fazer do nascimento de cada um? Também são questões muito fundamentais para o ser humano, mas infelizmente, têm passado batido para a maioria das pessoas.

Por sorte existem profissionais que trabalham todos os dias para que o nascer também seja levado em consideração. Hoje eu trago uma destas profissionais para falar com a gente sobre o nascer: a doula Milena Seko, que acompanha gestantes e bebês na hora do parto e também orienta muitos e muitos casais e mães gestantes em encontros no Gesta Maringá.

Maternamos – Milena, eu gostaria de começar nossa conversa falando sobre a importância da forma de nascimento das pessoas. Na sua visão, por que faz diferença a forma em que nascemos? O que estamos dizendo para as novas pessoas (bebês) sobre o mundo na hora que as recebemos?

Milena – O nascimento é um evento único na vida de um indivíduo e esse evento é carregado de significados. Quando o bebê dá o sinal de que ele quer nascer, isso significa que ele está pronto pra vir ao mundo. Respeitar esse momento e a forma como recebemos esse bebê faz toda a diferença. Tudo é novo e assustador pra ele. Quando um bebê é tratado como um ser único, quando há essa sensibilidade por parte dos profissionais e sua fisiologia e suas emoções são respeitadas isso pode se refletir em comportamentos na infância e na vida adulta de acordo com alguns estudos. Quando um bebê é recebido com carinho, respeito, acolhimento e visto com um ser que sente dor, medo, estamos dizendo a ele: você é bem vindo a esse mundo! Não tenha medo! Isso transmite segurança e amor.

Maternamos – Gostaria que você explicasse, mesmo que resumidamente, qual é o tipo de parto mais respeitoso e benéfico para a criança e para a mãe. Quais são as principais características deste parto?

Milena – Sem dúvida, o parto normal é o ideal para o binômio mãe bebê. O trabalho de parto indica que o bebê está pronto, está maduro. É no trabalho de parto que o bebê termina a maturação de outros sistemas como o neurológico, cognitivo, intestinal e obviamente pulmonar. Aumenta o vínculo mãe bebê e o sucesso com a amamentação também é maior. O parto humanizado é aquele que respeita as escolhas da mulher, não importa se é na água, na cama, na banqueta de parto em casa ou no hospital. A assistência é focada na mulher, não no médico e as decisões são discutidas e tomadas em conjunto com o casal. Nesse tipo de parto a mulher tem mais liberdade e privacidade e ela é vista pela equipe na sua individualidade, respeitando suas emoções e a vulnerabilidade do momento. Os procedimentos com o bebê são amenizados e são feitos só em caso de real necessidade. O bebê fica em contato pele a pele na primeira hora de vida.

Maternamos – De que forma uma gestante e companheiro podem se preparar para buscar este tipo de parto?

Milena – O casal que deseja esse tipo de parto deve buscar informação de qualidade, respaldada em evidências científicas. Hoje em dia há inúmeros sites e blogs com boas informações. Os grupos de apoio ao parto são ferramentas excelentes. Nessas reuniões presenciais temas são discutidos e esclarecidos e o casal pode compartilhar suas dúvidas e medos e assim se fortalecer mais ainda da sua decisão. A escolha de obstetra que realmente apoie o parto normal é essencial.

Maternamos – Em quais casos uma cesárea se torna a melhor opção?

Milena – As indicações absolutas de cesariana não são muitas, outras são discutíveis e muitas delas são diagnosticadas de forma equivocada. Por isso ter informação e a escolha do profissional são muito importantes. As indicações absolutas de cesariana são: prolapso de cordão com dilatação não completa, placenta prévia, descolamento de placenta com feto vivo, posição transversa do feto no útero, ruptura de vasa prévia, herpes genital ativa. Outras indicações de cesariana durante o trabalho de parto: sofrimento fetal agudo, desproporção cefalopélvica, parada de progressão. O parto pélvico, de bebê sentado, só é possível com equipe experiente.

Maternamos – Vejo, infelizmente, que muitas vezes as discussões sobre nascimento acabam em rixas entre mães que tiveram parto natural e mães que tiveram cesáreas. O que podemos dizer a elas?

Milena – Eu sempre digo que o tipo de parto não define a mãe que iremos ser. Quando uma mulher se coloca numa posição superior porque teve um parto normal ela não ajuda a conscientizar a mulher que teve uma cesariana desnecessária. É preciso muito amor e empatia, mas ao mesmo tempo, é uma porta que só abre do lado de dentro. Tem pessoas que simplesmente não questionam e aceitam o modelo de sistema em que vivem.

Maternamos – Gostaria que você explicasse qual é o papel da doula no trabalho de parto e por que ela é essencial para que a gestante se sinta melhor durante o processo.

Milena –  Doula é uma profissional que oferece um serviço de acompanhamento personalizado, que se inicia no pré-natal e continua até semanas após o parto. Na gestação ajuda a mulher a se preparar para o parto, trabalhando seus medos, oferecendo material de qualidade para ela se informar; acolhe e ouve desabafos. No trabalho de parto a presença da Doula é constante. Brinco que a Doula é a primeira a chegar a e última a sair. Ela é uma presença invisível e sensível e esta ali para servir e ajudar a mulher no que for necessário. Oferece água, alimento, posições favoráveis para o parto, olha nos olhos, ajuda a mulher a se enxugar após um banho quente, faz massagens, abraça, acredita e confia na mulher. Ela olha a mulher de uma maneira única, sem medo, sem receio, sem julgamentos e cobranças, pois seu foco é somente a mulher; por isso que marido e nenhum outro profissional substitui a Doula.

Maternamos – Qual a sua avaliação da recente resolução do Conselho Federal de Medicina que proíbe as cesarianas eletivas antes das 39 semanas de gestação?

Milena – A Resolução da cesárea a pedido é boa em termos. Repito que a unica garantia de que o bebê está pronto para nascer é o trabalho de parto e apenas 30% das mulheres entram em trabalho de parto antes das 39 semanas. Então digo que é uma evolução mas não soluciona o problema.

Gostou desta entrevista? Então compartilhe! 

No Comments

Post a Comment