Como ficar satisfeita com o BLW desde o primeiro dia – Maternamos entrevista Melina Caldani | Maternamos
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Como ficar satisfeita com o BLW desde o primeiro dia – Maternamos entrevista Melina Caldani

Seu bebê começou a introdução alimentar pelo método Baby Led Weaning (BLW) há semanas e ainda não engole pedaços de comida? Ele cospe tudo ou joga no chão?

Então quer dizer que o processo de introdução de alimentos está indo muito bem.

Como assim?!

Quem explica tudo para a gente hoje nesta entrevista exclusiva é a Melina Caldani, uma fera em BLW que ajuda famílias que desejam aplicar o método, compartilhando experiências e conceitos.

Quer ver como foi a nossa conversa? Vamos lá!

Maternamos – Uma dúvida que eu tenho e imagino que muitas mães também tenham é a seguinte: tem como a gente saber que a evolução do nosso bebê com o BLW está sendo satisfatória? 

Melina – Primeiramente, precisamos refletir sobre o que é o comer para nós. Isso dá o tom da expectativa em torno da alimentação e do método que escolhermos aos nossos filhos. Se eu penso que alimentação = comer = engolir, então o BLW poderá demorar a fazer sentido em termos de resultado, de fim. Se eu entendo a alimentação como um processo complexo, que envolve desenvolver múltiplas habilidades, então o BLW me será satisfatório desde o primeiro dia.

Veja bem, um bebê de cerca de seis meses tem habilidades motoras para se sentar, agarrar objetos e levá-los (qualquer um deles) à boca. Ele pode fazer tudo isso sem engolir nada. Mas um objeto qualquer e um alimento irão proporcionar diferentes aprendizados. Um brinquedo será diferente de uma fruta. Mas em relação à fruta, eu espero que ele termine o processo, mastigando e deglutindo.

Porém, esse mesmo bebê de seis meses provavelmente que conseguirá levar a banana pra boca, possivelmente não a deglutirá, porque ele ainda precisa aprender a tirar pedaço e manter o pedaço lá dentro. Só num outro momento ele conseguirá fazer isso, para só depois mastigar e só depois engolir. Ainda demorará até que ele compreenda que aquilo que ele engoliu era um alimento e que, como alimento, podia saciá-lo.

Tudo isso envolve tempo – para alguns bebês, serão dias, para outros meses. Então, embora um bebê de 6 meses leve comida para a boca e tenha condições de aprender esse processo, levará tempo para que atinja os marcos e consiga fazê-los – o que pode se iniciar com 7, 8, 9 meses.

Ao mesmo tempo, ele está aprendendo e treinando outras habilidades como engatinhar, soltar os objetos da mão, ficar de pé, balbuciar, andar… o ato completo de se alimentar é um entre tantos. Eles não têm a mesma carga de expectativa que o adulto. Para o bebê, ele está indo muito bem desde o primeiro dia! E está!

Você pode se referenciar nos marcos de desenvolvimento para observar o que seu filho tenderá a fazer em cada idade, mas isso será atravessado por outras questões como picos, dentição, separação e, não nos esqueçamos, vontade. A Fabíolla Duarte, do Colher de Pau, expõe muito bem que o bebê tem vontades. O BLW respeita que elas podem diferir das nossas.

Portanto, o bebê sempre estará evoluindo se eu considerar que a alimentação é um processo contínuo e não linear e que envolve o aprendizado motor e social ligado ao ato de comer. Se eu focar em engolir, então talvez precise concordar que o BLW possa ser mais lento para atender a essa expectativa dos pais.

Maternamos – Você iniciou a Introdução Alimentar (IA) do seu filho pelo método tradicional e acabou mudando para o BLW em seguida. O que despertou a sua atenção pelo BLW e motivou a mudança? 

Melina Caldani – Eu desconhecia o BLW até iniciar a IA do meu filho mais velho. Só sabia que não queria que a alimentação se tornasse uma fonte de estresse e gostaríamos que ele tivesse uma relação saudável com a comida. Ainda nos primeiros dias eu senti dificuldades. Achava que ele precisava, magicamente, começar a ingerir algo diferente do leite materno e eu realmente não via isso ocorrer. Oferecia os sucos, as frutas amassadas, mas ele cuspia tudo. Na mesma semana eu já estava bem desanimada porque achava que estava errando.

Permitíamos a exploração dos alimentos, mas eu insistia no ato de engolir e ele era ausente. Ouvia conselhos de que deveria empurrar a colher até certo ponto para anular o reflexo de empurrar a comida pra fora ou segurar as mãozinhas ou então distrair. Deixei que me mostrassem como era. Fiquei horrorizada. Não queria aquilo, um bebê engolindo como robô. Aquele cenário era o oposto do que desejava ensinar.

Então busquei ajuda num grupo da internet e li o termo BLW a primeira vez. Não entendi de primeira. Achei que era só uma forma diferente de apresentar os alimentos. Então, tirei uma semana para apresentar a comida amassada e em pedaços. Deixava explorar os dois. Ele se interessava pelo alimento in natura e eventualmente punha na boca. Na terceira semana, deixamos a oferta amassada e passamos a ofertar só os pedaços.

Eu ainda não havia entendido toda a essência do método – que não se trata de comer com as mãos, ou em pedaços, ou comida separada… mas de deixar a criança aprender a comer no seu ritmo, controlando a ingestão: se, quando, o quê e quando comer.

Ainda assim, foi um avanço. Ver o interesse nos motivou a persistir e aos poucos fomos aprendendo e nos permitindo. Sem dúvidas, valeu a pena. As refeições compartilhadas passaram a ser momentos em que nos divertíamos. ele aprendia, provava, interagíamos e o ato de se alimentar se tornou mais uma momento de aprendizado e não o centro do nosso dia, cercado de ansiedades.

Maternamos – Considerando que o leite materno continua a ser o principal alimento até o primeiro ano de vida, até que ponto as mães devem ficar super preocupadas em oferecer uma alimentação variada e balanceada para a criança em IA?

Melina – O BLW é um método de introdução alimentar ou uma abordagem de introdução alimentar. Ele não é uma dieta. Sugere-se que o bebê seja inserido no contexto de alimentação da família, sem alimentos especialmente feitos para ele (mas adaptamos os formatos no início, se quisermos, para possibilitar que ele manipule os alimentos com eficiência e segurança).

Nesse sentido, pensando a IA como uma fase de aprendizado, é importante a variedade e alimentos saudáveis em razão da formação dos hábitos alimentares a longo prazo. Via de regra, será ofertado o que a família considerar adequado. Não é orientação do BLW a distribuição e oferta dos diferentes grupos, mas qualquer um se beneficia das boas práticas e orientações de nutrição.

O foco da prática é aprender esse ato complexo de comer, de estar em sintonia com os mecanismos de fome e saciedade. Muito melhor se isso implicar numa vivência de bons hábitos por toda a família. Mas o cardápio é escolha familiar. Não é diretriz do método. Para quem deseja individualizar mais essa questão, um profissional de nutrição é muito indicado.

Maternamos – Bebês alimentados com fórmula devem seguir alguma orientação diferente no BLW?

Melina – Via de regra, não. Gosto de lembrar que eles se beneficiam muito na questão do estímulo a mastigação, uma vez que o bebê amamentado já vem mantendo os estímulos mais completos das estruturas utilizadas para mastigação do que os não amamentados. Com o BLW, o bebê em aleitamento artificial terá oportunidade de estimular ainda mais. Um profissional da área poderia especificar mais os benefícios.

Maternamos – Entendo que o BLW na sua origem é incluir o bebê nas refeições familiares. Mas muitas vezes, devido à preocupação em oferecer comida saudável para a criança, muitas vezes vejo que o cardápio do bebê fica diferente do resto da família (principalmente quando alguns familiares não são muito ligados em comer bem). O fato de o bebê ter um cardápio diferente compromete a essência do BLW?

Melina – A essência do método é o controle da alimentação pela criança (se, quando, quanto, o quê e como comer). As demais orientações complementam o argumento de que a criança se beneficia da alimentação compartilhada pela questão do convívio, do aprendizado por imitação, da linguagem, do aprendizado dos instrumentos.

Entendo que nem sempre é possível seguir à risca; pessoalmente, não realizar as refeições em conjunto ou fazer comida diferente faz perder um pouco o que o BLW tem de diferencial, mas se o bebê segue mantendo o controle sobre a própria ingestão, então o método em si, no núcleo, está preservado. É uma questão de respeito às particularidades de cada família.

Maternamos – Quando a mãe trabalha fora mas quer adotar o método BLW, que orientação você dá? Isso é possível?

Melina – Será possível para muitas famílias. Não será para outras. Nessa hora, é importante respeitar as limitações. Costumo sugerir, em primeiro lugar, que se conheça o perfil dos cuidadores que irão alimentar a criança na ausência. Saber se conhecem o método, se estão abertos a ele e se se sentem seguros em caso de mudança – e respeitar as limitações pessoais- é importantíssimo.

A partir daí, e considerando o próprio contexto (quantas horas de ausência, estocagem de leite materno para quem amamenta, quais as refeições que serão dadas, se a criança está em casa ou na escola), é possível organizar a nova rotina.

Só voltei a trabalhar na IA da minha caçula. São 8 horas de ausência, incluindo almoço, lanche da tarde e eventualmente jantar. Eu pude estar em casa nas primeiras duas semanas da IA. Estocava leite materno até cerca de um ano e amamentava no meio do expediente até um ano e três meses. A cuidadora estava familiarizada com o método mas tinha limitações em relação a alguns alimentos. Sempre que possível, esses alimentos não eram ofertados na minha ausência.

Quando não era possível, a cuidadora oferecia do jeito que considerava seguro, respeitando fome e saciedade e exploração – eu não considero que uma liberdade eventual transforme a IA tradicional em BLW do mesmo modo que não considero que uma alimentação eventualmente assistida descaracterize o BLW (essa frequência “eventual” é muito controversa e o BLW, conceitualmente falando, não tem espaço para alimentação passiva em nenhuma oportunidade).

Na escola essa negociação pode ser mais difícil, mas não impossível. Vale tentar.

Penso que, quando não for possível deixar a criança conduzir a própria alimentação na ausência dos pais, ainda será muito benéfico se valer das diretrizes para os momentos em que a família acompanhar as refeições. Ainda assim, é sempre possível que as outras pessoas respeitem os sinais de saciedade e permitam a exploração, bem como que seja pedido que a transição de texturas (conforme está nos manuais da SBP, MS, OMS) seja atendida, sem que a comida amassadinha se prolongue por muito tempo e sem que esteja toda misturada.

Maternamos – Obrigada, Melina!

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Clique aqui para ler mais dicas da Melina

– Para começar o BLW, é importante que o bebê nascido a termo (com desenvolvimento esperado para idade) tenha seis meses, sente-se com pouco ou nenhum apoio e tenha vontade. Observe esses sinais antes de começar.

– A melhor refeição é aquela cheia de presença.

– Respeite suas escolhas e limitações familiares.

– É normal que o processo não seja linear.

– Saiba diferenciar gag reflex e engasgo para saber quando não intervir e quando intervir com eficiência.

– Quem tem acesso se beneficiará muito da leitura do livro original da Gill Rapley.

– O mais difícil não é conhecer ou começar, é se apropriar da essência do BLW de que o bebê é um sujeito capaz de conduzir sua alimentação, capaz de desenvolver suas habilidades e estabelecer uma relação de autonomia e prazer com a comida. É difícil desconstruir a IA tradicional e continuar no BLW quando vierem aqueles dias de inapetência, quando a criança estiver ansiosa e se voltar exclusivamente ao peito, quando deixar de aceitar algo de que gostava muito. Nessas horas, a IA tradicional, a insegurança, os palpites, todos eles farão algum sentido, pensaremos que estamos errando… mas são fases… os bebês são sujeitos e seu crescimento é complexo. Ele estará nutrido. Ele estará bem. Meu desejo é: confiem que vocês conseguem atravessar por isso, porque o bebê está certo de que conseguirá :)

Desejo que possa ajudar a quem está no caminho ou começando. Valerá a pena! Feliz BLW!

Divulgação

Melina com sua filha Alice (Divulgação)


Perfil: Melina Caldani se apresenta como mãe curiosa, que conheceu o BLW em 2012, na IA do Miguel, seu filho que hoje tem 3 anos e 9 meses, e repetiu a opção com a caçula, de um ano e oito meses. Ela é uma das moderadoras do primeiro grupo de BLW brasileiro, o BLW: Baby-Led Weaning, ao lado da Stheffany Nering e da Érica Tavares e de outras moderadoras convidadas.

Esta mãe-BLW, que agora vive sua terceira gestação, não gosta de se apresentar como uma consultora, e esclarece que todas as consultoras de BLW são todas autodidatas no Brasil. “Mesmo que se tenha a formação na área de saúde, o método está sistematizado exclusivamente pelo livro da Gill [Rapley] e seus estudos são todos incipientes”, ela disse.

Nossa entrevistada de hoje vive em Londrina (PR), e já ministrou várias oficinas sobre o assunto em cidades da região, como Maringá (onde eu moro atualmente!), em 2014 e 2015, além de ter participado do primeiro Congresso Online de Atualização em Alimentação Complementar (Conalco).


Comments ( 2 )

  • Érica Stéfane da Silva

    Muito grata ao grupo Maternamos e a você Melina, estou muito feliz por ganhar essa gostas preciosas de conhecimento.
    Parabéns pela atitude nobre de passar a adiante o que sabe para o bem do próximo
    Meu sentimento é gratidão.

    • maternamos
      Maternamos

      Érica, fico muito muito feliz com seu comentário!! Sinta-se em casa aqui! Beijos!! Natalia

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