Maternamos entrevista Aline Padovani – Criadora do Conalco relança seu curso de BLW | Maternamos
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Maternamos entrevista Aline Padovani – Criadora do Conalco relança seu curso de BLW

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Nicolas e sua mãe Aline

Se você curte o método de introdução alimentar Baby Led Weaning (BLW) como eu, já deve conhecer esta profissional que é uma referência de BLW no Brasil: a fonoaudióloga Aline Padovani. Conheci o trabalho da Aline quando estava começando a aprender sobre BLW e fui aluna do curso avançado dela, que me ajudou a entender o que é e como funciona este método.

Ela é mãe do Nicolas, autora do blog Tá na Hora do Papá e idealizadora do Conalco, congresso online que reúne muita gente boa para falar sobre nutrição infantil.

A Aline contou pra gente sobre sua vivência de BLW, explicou a importância da autonomia mesmo quando a família decide não seguir este método, e contou sobre o curso avançado que está sendo relançado! Aliás, corre que as inscrições vão fechar agora, dia 31 de janeiro. Para ver mais, clique aqui.

A Aline também contou pra gente que ela tem um sonho. E sabe qual é o sonho da Aline? Ver os profissionais de saúde tentando enxergar do ponto de vista das famílias, e não apenas olhando para os livros, gráficos e estatísticas. É justamente por isso que o curso da Aline é voltado não somente para mães, mas para pediatras, nutricionistas, enfermeiros, fonoaudiólogos e outros profissionais da saúde.

Vamos ver o que ela me contou pra gente com exclusividade?

Maternamos – Aline, li uma vez que seu sonho é fazer os profissionais de saúde enxergarem pelo ponto de vista das famílias. Explica um pouco pra gente sobre este sonho?

Aline Padovani – O meu sonho é que os profissionais da saúde olhem mais para quem está na frente deles e não tanto para os livros, teorias, porcentagens e gráficos. Que observem mais as queixas, as intenções e o que a família traz. Que olhem o processo do ponto de vista da família e aí tomem decisões, como por exemplo, se o BLW serve ou não, ou se é melhor fazer uma Introdução Alimentar Participativa. Com certeza o BLW não é o método ideal para todas as famílias, mas nem por isso o profissional deve deixar de lado e desconsiderar os benefícios que uma abordagem flexível poderia trazer.

Quando uma família chega ao consultório e diz ao profissional de saúde que está interessada em deixar o bebê ter mais autonomia e permitir que ele conheça os alimentos de forma gradual, no tempo dele, e o profissional se fecha a tudo isso, ele está afastando a família. Então quando a gente escuta o que a família quer e tenta caminhar junto com ela, estamos dando a oportunidade para a família poder decidir o que é melhor para si própria, dentro de um contexto. Então tudo é conversável, tudo pode ser pesado, abrir exceções, enfim, tudo baseado no contexto em que a família está inserida.

Com todos os projetos eu que desenvolvo, tento trazer esta conversa entre as mães e os profissionais. Eu tento trazer a prática porque a teoria é linda no livro, mas na prática temos dificuldades de aplicar, e aí nos sentimos anormais, mas a verdade é que cada um tem um jeito muito particular de ver as coisas. Acho que todo profissional de saúde deveria realmente ouvir muito mais toda essa história que vem junto com a família do que apenas um exame clínico.

Maternamos – Aline, conte um pouco sobre o seu curso avançado de BLW, que está novamente com inscrições abertas. Foi neste contexto que você criou o curso?

Aline Padovani – O curso está de volta, e as inscrições estão abertas até 31 de janeiro. Ele foi concebido para profissionais de saúde, está bem completo e é baseado em evidências científicas, no desenvolvimento infantil normal. O curso tem muita informação sobre o desenvolvimento infantil normal, baseado em informação já publicada, e traz todos os estudos recentes de BLW, situando onde a gente está hoje, onde gostaria de chegar. Tem também várias aulas extras do Conalco com profissionais de saúde e mães que aplicam o método. Está bem bacana, é um curso intensivo para quem quer aprender o BLW mais a fundo, mergulhar no método. E quem está no curso participa de um grupo fechado no Facebook, que reúne muitos pediatras, nutricionistas, enfermeiros, fonoaudiólogos e mães. É um grupo rico em diversidade e intenso em informação porque reúne muita gente empoderada.

Maternamos – Certamente você é uma referência de BLW no Brasil, e eu adoraria saber como foi que este assunto surgiu na sua vida. E o que mais te encantou a respeito do método?

Aline Padovani – O BLW entrou na minha vida quando o meu filho Nicolas estava perto de completar 6 meses e eu decidi que ia comprar uma peneira e fazer papinhas para ele. Mas aquilo pareceu um pouco estranho para mim e comecei a pesquisar sobre alimentação infantil e as melhores formas de se começar a alimentação da criança. Foi aí que encontrei o BLW, no grupo “Falando de Introdução Alimentar”. Comecei a estudar nos grupos e senti a necessidade de ler o livro da Gill Rapley, então comprei o livro e comecei a estudar.

Para mim começou a fazer muito sentido você observar o desenvolvimento da criança. E comecei a retomar meus estudos da faculdade, porque sou fonoaudióloga. Estudei desenvolvimento infantil na faculdade e voltei a estudar isso, e aí fui ficando fascinada pela ideia de o bebê poder ser um agente ativo da sua própria alimentação e não considerar a alimentação como só engolir meia dúzia de nutrientes. Mas pensar em comer como se alimentar, como algo prazeroso, gostoso, que é legal compartilhar o momento de refeição, que é saboroso, que pode ter diferentes alimentos de diferentes cores.

Acho fascinante que o aprendizado da criança pelo BLW seja tão natural e tão óbvio. O que parece é que a gente desaprende a comer quando outra pessoa coloca a comida amassada na nossa boca. E o BLW deixa a criança aprender por si própria, ter o momento de olhar o alimento, sentir os sabores, saber se gosta ou não, se quer realmente mastigar e engolir. Essa predisposição da criança muitas vezes não vem no momento exato em que a gente gostaria, não existe mágica que faça a criança começar a comer de repente aos seis meses. E toda esta liberdade de poder deixar que a criança aprenda no tempo dela me encanta muito.

Porque para mim, hoje, é até engraçado pensar que a gente  espera a criança aprender a andar por volta de um ano, mas se ela não anda, não tem como forçar. Você tem que esperar. Refletindo como a gente tem feito a Introdução Alimentar fica até meio incoerente pensar que a gente tem que decidir o momento certo da criança comer.

Então quem sabe o momento que seria prazeroso de comer, de estar pronto e disponível, seria o próprio bebê e não quem está do outro lado, querendo que isso aconteça. A gente fica ansioso mesmo. Meu filho demorou para andar, e óbvio que eu ficava ansiosa, mas ele andou no tempo dele quando o corpo dele estava preparado. É isso que me encanta mais que tudo no BLW.

Maternamos – Aline, você costuma frisar a importância da autonomia, mesmo para as mães que optem por não seguir o método BLW. Por que é tão importante dar essa autonomia para o bebê?

Aline Padovani – Tem mães que não conseguem fazer o BLW e eu sempre incentivo a fazer uma forma de introdução alimentar participativa, em que criança tem autonomia para escolher, para pegar se quiser, segurar a colher se quiser. Porque tudo isso faz parte do processo de aprender a se alimentar. E não apenas engolir comida, como eu já disse. Então a autonomia faz com que tudo faça mais sentido. Você participa ativamente de um processo de desenvolvimento que é seu.

A gente tem que tirar um pouco essa coisa de querer ensinar a criança a comer. Comer é uma aquisição desenvolvimental. A criança está preparada a partir de um certo tempo e vai comer quando o desenvolvimento dela estiver disponível para isso. E essa autonomia dá a chance da criança aprender nessa janela de oportunidade.

A autonomia permite que o bebê aprenda sobre todas as formas de se alimentar e tenha prazer em se alimentar. E não receber passivamente algo amassado, muitas vezes com vários alimentos na mesma textura, sem saber o que está indo para a boca dele. Quanto mais a criança participar ativamente de todo este processo, mais ela vai aprender de fato sobre alimentação e não assimilar passivamente o que foi dado.

Ela vai entender o quão duro ou quão mole é um alimento, o quanto de força vai ter que colocar na mastigação, e quanto de força vai colocar na mão para levar à boca sem destruir o alimento. Quanto ela vai ter que segurar este alimento na boca, quanto ela vai ter que mastigar antes de engolir. Isso tudo são aprendizados que fazem parte do desenvolvimento da criança. Ninguém ensina para ela. O cérebro do bebê está disponível para fazer diversas conexões de acordo com o que é apresentado. Quanto mais estímulos tiver na frente para testar e experimentar, mais essa criança vai assimilar tudo isso na prática de uma forma super natural. Por isso autonomia é tao importante.

Muita gente me pergunta se uma criança de 1 ano e meio pode fazer BLW. Neste caso já não é mais BLW, mas eu reforço a questão da autonomia. Muitas vezes quem é adepto da introdução alimentar mais tradicional vai começar a falar para a criança comer sozinha com a colherzinha lá por volta de um ano e meio, dois anos, incentivando a autonomia só neste momento. E aí a criança já está começando a ficar com as vontades dela, separando coisas no prato, não quer comer determinadas coisas porque não criou antes um contato visual, tátil, e uma percepção sensorial de todos estes alimentos.

Se a gente dá oportunidade de ela ter essa autonomia antes, mesmo que não esteja dominando a colher nem o garfo, ela vai fazer com as mãozinhas, é o jeito que ela vai conseguir se auto-alimentar, até o momento próximo de um ano e meio, dois anos, e ela vai treinar a fazer tudo isso do jeitinho dela, com colher e garfo. Tudo isso sem pressão, com liberdade, podendo fazer um pouco com a colher e um pouco com a mão. Então toda essa autonomia leva a ter prazer de se alimentar. É gostoso você saber o que gosta ou não gosta e escolher o que você vai comer ou não.

Podemos parar para pensar em nós mesmos. Será que a gente gostaria de comer alguma coisa que não sabe o que é, simplesmente abrir a boca, alguém colocar na nossa boca e aí termos que fechar a boca e engolir? Nós adultos não estamos dispostos a isso e podemos refletir e pensar: porque uma criança deveria estar? A autonomia também está  ligada ao prazer da criança em se alimentar e saber que pode recusar um alimento se não quiser. Ela fica mais aberta a provar coisas novas porque ela sabe que não precisa nem encostar no que ela não quiser. Eu dou essa liberdade para ela. <3

Maternamos – Muito obrigada Aline!

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