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Maternamos entrevista Carlos González – Pediatra espanhol se identifica com BLW e diz que nossas avós já praticavam este método

Carlos González é um pediatra espanhol adorado por muitas mães brasileiras, e com certeza é um verdadeiro ícone para mim e para grande parte das leitoras do Maternamos, que conhecem os seus livros e admiram seu trabalho. Para quem não o conhece, uma maneira bem simples de definir o doutor Carlos é dizer que ele é um “advogado dos bebês”. Ele defende que um bebê tem os mesmos direitos que os adultos e que suas demandas são legítimas e merecem ser acolhidas.

Deixar bebê chorando, castigar ou repreender são alguns dos pontos questionados pelo autor no seu livro mais conhecido, o “Bésame Mucho”. Ele esteve no Brasil neste mês para divulgar o livro “Meu Filho Não Come”, lançado pela editora Timo, e tive a oportunidade (e honra!) de bater um papo com ele por email. Hoje eu trago para vocês o resultado desta conversa.  Falamos sobre:

  • A visão do Dr. Carlos sobre o BLW
  • A relação das famílias com os pediatras e o medo de dar autonomia para as crianças
  • Aleitamento em livre demanda, até quando?
  • Criação com amor
  • Como podemos ser os melhores pais possíveis

Queria começar pela parte da introdução alimentar, que é o tema do livro dele e também um tema fundamental aqui no Maternamos. O mais importante para quem pratica ou simpatiza com a abordagem de introdução alimentar Baby Led Weaning (BLW) é que o Dr. Carlos afirmou que sua visão é praticamente a mesma do BLW – que defende a autonomia e a inclusão das crianças nas refeições familiares desde o começo da alimentação complementar. “Basicamente nós dizemos as mesmas coisas [eu e a autora do BLW, Gill Rapley]”, ele disse, quando eu o questionei sobre a sua visão sobre o livro referência do BLW.

Ele destacou que esta forma de encarar a alimentação complementar não é nenhuma novidade.  “Não é nada novo, é simplesmente o que faziam as nossas avós, que não iam todos os meses ao pediatra para perguntar o que as crianças tinham que comer, e não tinham processadores para fazer purês.”

Para o pediatra espanhol, a introdução alimentar das crianças deve ser feita da forma mais “normal” possível, sem comida triturada e com autonomia. Em suas palestras, ele costuma dizer que os pais devem começar a jornada da alimentação de olho no objetivo final, incentivando os comportamentos que desejam ver no longo prazo. Por isso, ele acredita que não faz sentido começar alimentando os bebês de forma passiva com papinhas, e defende que uma criança nunca deve ser forçada a comer.

Em sua visão, as crianças são capazes de saber se estão com fome desde o nascimento, e não perdem esta habilidade com o tempo. São mais espertas do que costumamos pensar. É justamente esta confiança no bebê que permite a tantas famílias praticarem o método BLW.

No entanto, sabemos que muitas pessoas ainda têm medo de dar liberdade para as crianças durante as refeições. Para o Dr. Carlos, este  receio dos pais provavelmente foi gerado pelos médicos. “Suspeito que os médicos temos grande parte da culpa, pois durante décadas nos dedicamos a dar instruções muito detalhadas para as mães sobre a alimentação infantil: em que mês dar o alimento, em que hora, como se cozinha, quais quantidades (quantidades, ainda por cima, muito exageradas).”

Para o Dr. Carlos, todas estas recomendações eram “invenções” dos médicos, pois é difícil encontrar dois pediatras que deem recomendações iguais. “Os pediatras passavam estas orientações com muita pompa, como se a vida do bebê dependesse de seguir ao pé da letra as nossas instruções.”

Grande defensor do aleitamento materno, o Dr. Carlos defende que as mães adotem a livre demanda, sem seguir horários rígidos para as mamadas. Perguntei a ele se as mães devem manter a livre demanda após o primeiro ano de vida ou depois que a alimentação já se estabeleceu. Segundo ele, a livre demanda é sempre a melhor alternativa, pois determinar mamadas de dez minutos a cada quatro horas, por exemplo, seria uma escravidão para a mãe, independentemente da idade do bebê.

Isso não significa que apenas o bebê decide quando mamar, mas que a mãe também tem um papel ativo na oferta do aleitamento, explicou. “Amamentação em livre demanda significa, literalmente, quando a mãe quiser. Em tese, poderia ser quando o bebê ou a mãe quiser, mas tem uma pequena armadilha: no começo, o bebê não fala. É a mãe que interpreta que os seus choros, movimentos ou gestos significam que o bebê está pedindo o peito. É a mãe que decide, a cada momento, se dá o peito ou não. Apenas depois de um ano que o bebê começará a pedir claramente ‘quero mamar’”.

A admiração das mães pelo Dr. Carlos vem, em grande parte, da sua visão de que as crianças devem ser amadas, acolhidas, e tratadas de forma respeitosa. Conversamos um pouco sobre isso, e ele afirmou que a cultura de deixar os bebês chorarem é algo recente na história da humanidade, que surgiu no século XIX e se generalizou somente no século XX.

“Observe, por exemplo, a pintura religiosa: não encontrará nem um só quadro da Virgem repreendendo o menino Jesus, batendo nele, deixando chorar, colocando limites… Em todos, absolutamente em todos os quadros, a Virgem está com o menino no colo, olhando para ele com ternura, dando o peito ou brincando com ele. E evidentemente os pintores religiosos queriam demostrar que a Virgem foi a melhor mãe do mundo; se tivessem pensado que era conveniente relegar ou castigar, teríamos imagens da “Virgem dos Castigos” ou algo parecido”, afirmou.

Para encerrar, perguntei para o Dr. Carlos o que podemos fazer para sermos as melhores mães ou pais possíveis e criar seres humanos felizes. Ele disse que todos nós somos os melhores possíveis dentro das nossas circunstâncias, conhecimentos e biografia pessoal, e acrescentou: “acredito que o mais importante que os pais podem fazer para os seus filhos é amá-los muito e demonstrar isso”.

Terminei a entrevista me sentindo ainda mais fã do que eu era antes. A mensagem do Dr. Carlos faz muito sentido para mim, pois acredito que uma criança que é amada aprende a amar, e no futuro vai passar este amor adiante. Com isso, mães e pais têm o poder de mudar o mundo para melhor.

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Até a próxima!


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PERFIL: Doutor em sua área e autor de vários livros sobre educação, alimentação e saúde infantil, o médico é licenciado pela Universidade Autônoma de Barcelona e especialista em amamentação pela Universidade de Londres, além de fundador da Associação Catalã Pró Aleitamento Materno, membro do Conselho de Assessores de Saúde de La Leche League International e assessor da Iniciativa Hospital Amigo da Criança (Unicef). Seus livros já venderam 350 mil exemplares somente na Espanha e já foram traduzidos para 12 idiomas.

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