Maternamos entrevista Fabiolla Duarte – Os perigos de se forçar uma criança a comer | Maternamos
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Maternamos entrevista Fabiolla Duarte – Os perigos de se forçar uma criança a comer

“Só mais uma colher!”

“Se não comer não tem brincadeira…”

“Come agora ou vai passar fome até a janta!”

Quem nunca presenciou (ou até participou) de negociações e ameaças como estas direcionadas a crianças que não queriam comer? Ou que não comiam a quantidade que seus pais ou cuidadores consideravam ser a quantidade certa?

Infelizmente, existe uma crença de que este tipo de conversa é para o bem da criança. Mas não é.

Recentemente, a Fabiolla Duarte, do Colher de Pau, publicou um artigo que chacoalhou a internet materna, falando sobre os perigos de se forçar uma criança a comer. E quando ela diz forçar, não é apenas colocar colher boca abaixo, mas também barganhar, negociar e ameaçar.

Apesar de muitas vezes ter boas intenções, esta abordagem tem consequências sérias na vida da criança. Conversei com a Fabiolla sobre este assunto e o resultado está aqui. Confira!

Maternamos – Fabiolla, você publicou um texto polêmico explicando que não se deve forçar uma criança a comer, nem distraindo nem usando ameaças ou barganhas. Por que está tão enraizado na nossa cultura que os pais podem/devem forçar a criança a comer?

Fabiolla Duarte – Eu imagino que seja porque muitos pediatras, há muitas décadas, se preocupam com ganho de peso mais do que com uma saúde global. São poucos os pediatras que não dão tanto valor assim para as balanças. Quando um pediatra se preocupa acima de tudo com peso, a mãe da criança muitas vezes fica angustiada e se sente pressionada. Quando a criança não come a quantidade que ela espera que coma, para que ganhe o peso que o pediatra espera que essa criança ganhe, ela muitas vezes lança mão de estratégias para fazer, a qualquer custo, que essa criança coma. Porque se ela não comer, é como se a pior das possibilidades estivesse acontecendo.

Assim começa a história de muitas famílias que forçam seus filhos a comer, acreditando que isso é o melhor a ser feito. Que isso é pelo bem da saúde dessas crianças, e muitas vezes não mais parar, porque a pressão pediátrica é muito grande.

Maternamos – Você poderia definir com exemplos o que é “forçar”? Peço isso porque muitas pessoas forçam sem perceber que estão fazendo isso.

Fabiolla Duarte – Forçar a comer é introduzir um garfo cheio de comida na boca de uma criança que não quer abrir a boca de jeito nenhum. Também é inventar maneiras de convencer essa criança, a deixando sem escolhas, a não ser aceitar comer, apesar de não gostar da comida ou não aguentar mais; como quando uma mãe diz que se a criança não comer, não vai mais brincar no play do prédio, ou não vai mais ganhar presente do papai Noel, ou que se ela não comer agora, não come mais nada até a noite e então passará fome, ou que se ela comer tudo, ela pode comer a sobremesa, etc.

Essas são formas de forçar a comer, porque o adulto deixa a criança sem escolha.

Maternamos – O que estamos ensinando aos nossos filhos quando forçamos a barra em relação à comida?

Fabiolla  Duarte – Isso é uma forma de abuso de poder, e isso já deveria ser uma razão boa o suficiente para não fazermos isso, mas se precisarmos de mais motivos, forçar a comer não é bom, porque na medida que isso se repete, a criança vai relacionando comer a desprazer, a desconforto, a violência, a invasão, a ânsia de vômito, a comer muito mais do que se precisa, etc. E são aspectos que, no campo do simbólico, vão sendo levados adiante como significado do que é COMER e podem comprometer uma boa relação com comida pela infância inteira e até vida adulta.

Muitos adultos sofrem de distúrbios alimentares. E todos que me contam suas histórias relatam terem sido forçados a comer sistematicamente na infância.

Maternamos – Quais consequências isso pode ter na relação que a criança vai estabelecer com a comida?

Fabiolla Duarte – As consequências são: não se alimentarem bem nutricionalmente falando, e terem uma enorme atração por alimentos pobres em nutrição. Isso porque, nesse cabo de guerra, de um lado está a comida boa, e do outro a comida ruim. Na extremidade da comida boa, relacionada a ela, está a violência. Na outra extremidade onde está a comida ruim, está a sensação de compensação.

E fora os possíveis distúrbios alimentares na vida adulta.

Maternamos – Olhando pelo outro lado, o que ganhamos quando confiamos no corpo da criança e deixamos que tome suas decisões de comer ou não comer?

Fabiolla Duarte – Ganhamos que NÃO estamos sendo violentos. Também acho que esse é um lindo ganho para todos da família, mas se precisarmos de mais motivos, ganhamos que teremos então filhos que conseguem desenvolver uma relação saudável com alimentação, porque estão fora daquele cabo de guerra que descrevi. A tensão não existe, e isso abre a possibilidade dessa criança se vincular á comida saudável com prazer. E a comida ruim, a comida porcaria (ou não comida), não fica sendo a maior meta na vida dessa criança. O maior sonho de consumo.

Também ganhamos porque somos desafiados a olhar para a relação que temos NÓS adultos com nossa própria comida. E somos desafiados a investir em comidas saudáveis e gostosas para a família inteira. Todos se beneficiam com isso.

E mais ainda: ganhamos filhos que estão em conexão com seus relógios biológicos, ligados no que realmente precisam. Ganham em autoconhecimento.

Mas não é tão simples levar a vida familiar dessa forma. Porque é preciso olhar para a criança. Estudá-la. Não existe uma fórmula pronta. Mas é muito bom ver que criar filhos dentro da paradigma da conexão é ter uma vida familiar muito rica, e dar espaço para as crianças desenvolverem muitas potências. É investir em saúde amplamente.

Maternamos – Neste contexto, o que você pensa sobre o método de introdução alimentar Baby Led Weaning (BLW)? Mesmo que a mãe não opte pelo BLW, quais atitudes ela deve evitar na IA tradicional?

Fabiolla Durate – Acho o BLW excelente, mas ele não é tudo. É preciso entender mais sobre quais são os aspectos da prontidão, porque não é porque uma criança tem 6 meses que está pronta para comer.

O BLW é um método interessante porque ele acontece a partir da autonomia motora do bebê, e se você for observar na natureza verá que filhotes mamíferos selvagens só comem quando estão completamente autônomos para pegar seu próprio alimento.

Na Introdução Alimentar se deve evitar que o bebê coma em horários separados da família. Comer é junto, sempre. Também deve evitar distrair a criança para que ela coma, deve evitar papinhas sem textura, e deve evitar papinhas com variados alimentos misturados. Eu não gosto de papinhas, sou contra mesmo, mas se uma familia for lançar mão dessa abordagem, que seja pelo menos uma papinha com alimentos separados. Então seriam várias papinhas em uma refeição. Porque é importante a criança criar repertório alimentar. Sofisticar o paladar.

Maternamos – Muito obrigada, Fabiolla!

Fabíolla Duarte

Fabiolla Duarte


Perfil – A Fabiolla é mãe, educadora e promove cursos livres – o Colher de Pau – que tratam do momento da introdução alimentar dos bebês e cultura familiar, com o objetivo de construir maneiras humanizadas de lidar com a alimentação, com respeito às fases de desenvolvimento infantil e valorização da autonomia da criança.

“Sou também (e principalmente) mãe de um filho que vive comigo e de uma filha que mora no astral. Meu trabalho como mãe é uma importante fonte de observação e construção de repertório. E meu trabalho com outras mães é intensa fonte de renovação.”

Ela é educadora formada na Inglaterra pelo Emerson College e pela Belas Artes de São Paulo, além de doula formada pelo Gama e pela parteira Naoli Vinaver.

Comments ( 10 )

  • Catielle

    Adoro seu blog Natalia. Obrigada por compartilhar tanta informação de qualidade.

    Um grande beijo de uma leitora fiel.

    • maternamos
      Maternamos

      Muito obrigada Catielle! Fiquei muito feliz com seu recado! Beijos

  • Paula

    Mas e com bebês? Minha filha tem 8 meses e comia bem, mas de repente não quer mais comida. Come umas quatro ou cinco colheres e depois fecha a boca e é difícil dar mais. É muito pouco de comida. Não posso insistir? O que fazer então?

    • maternamos
      Maternamos

      Paula, vale o mesmo com bebês sim! Por isso aqui no site falamos bastante sobre o método de introdução alimentar Baby Led Weaning (BLW), que dá total liberdade para os bebês desde o começo da introdução alimentar. Você já ouviu falar?

      • Paula

        Primeiro, obrigada pela resposta! Muito bom ter uma ajuda quando a gente fica assim, se sentindo impotente. Já ouvi falar sim, li algumas coisas também. Mas não sei como tentar usar com ela. Porque daqui a pouco voltarei a trabalhar e a babá ficará com eles sozinha, daí acho que me parece meio inviável ela cuidar de gêmeos e ter que limpar toda a sujeirada que o BLW faz no início. Mas gostaria de usar um pouco com ela sim pois ela é do tipo independente. Mas não sei como poderia fazer.

        • maternamos
          Maternamos

          Oi Paula, por nada! Então, você poderia dar uma autonomia maior quando você estiver presente (por exemplo, café da manha e ou jantar), e orientar a babá a não forçar a barra quando estiver dando no método tradicional. O importante é o dar a maior autonomia possível para que a refeição seja um momento feliz, e não algo estressante para eles. Espero ter ajudado, beijos

  • Bruna Suelen

    olá estamos a um mês com o blw aqui por casa com Ernesto de 7 meses, e ele está indo bem, come oq lhe interessa e engole tranquilamente, coisa que não consegui com a primeira filhote de 2 e 7 meses, hoje por exemplo não quis almoçar e eu tive chilique, e acabei caindo aqui nessa entrevista maravilhosa que me encheu de uma angustia boa e a decisão de não mais interferir no relógio biológico dela, preciso realmente melhorar e vou seguindo tentando… em relação à BLW senti uma dificuldade agora com o bb doentinho, pq ele recusa tuso que oferecemos direto na boca por conta da sua autonomia já adquirida, tive que dar remédio e foi mto difícil, queria saber em que momento será que ele vai usar colher, e como é a experiência de outras mães nisso de oferecer remédios e etc…

    grata.

    adorando o blog, me inspirando muito <3

    • maternamos
      Maternamos

      Oi Bruna! Olha, tb tenho muita dificuldade quanto preciso dar remédio! Ele gosta de tomar homeopatia, mas quando precisou tomar remédio para dor de ouvido foi complicado, usei aquela seringa para colocar na boquinha, mas ele tem ânsia, acaba vomitando. Então preciso esperar umas 2 horas depois de comer ou mamar antes de poder dar remédio. Mas acho que isso não tem relação com o BLW, acredito que seria da mesma forma com a alimentação tradicional… Acho que não te ajudei muito agora, rs, mas fiquei feliz por saber que o blog está te inspirando. Muito obrigada por ter postado comentário. Beijos!

  • Nani

    agora em março participarei o curso da fabiolla. ando preocupada com meu mais velho que tem comido bem mal ultimamente. eles tem 3anos e meio e eventualmente acabo lançando mão de argumentos como “bla bla bla só pode depois de comer”, ou mesmo um que achava menos pior mas que é horrível também “você sabe que não precisa comer tudo se não quiser, mas come mais um pouco”. é difícil tirar essas rotinas enraizadas de dentro da gente né?
    estou com boas esperanças para o curso com a fabiolla e ler essa entrevista já me deixou mais tranquila quanto ao caminho que posso tentar com meus meninos. :)

    • maternamos
      Maternamos

      Oi Nani! Eu te entendo, estas coisas estão enraizadas na gente. Mas ter consciência delas e querer ajustar é o mais importante. Você vai achar seu caminho. Obrigada pela mensagem e boa sorte! Beijos Natalia

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