Maternamos entrevista Tetê Nosso de Cada Dia - Vamos falar sobre as feridas relativas a amamentação? | Maternamos
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Maternamos entrevista Tetê Nosso de Cada Dia – Vamos falar sobre as feridas relativas à amamentação?

isa-fotoEstamos em plena Semana Mundial de Aleitamento Materno, e eu gostaria de colocar o dedo na ferida! Mas que ferida? Poxa, são tantas… Na minha visão, amamentar não é tão glamuroso quanto parece nas redes sociais e, na prática, recebemos mais oposição da sociedade do que apoio! Nem por isso eu desisti – amamento meu filho que tem 1 ano e 5 meses – mas gosto de mostrar todos os lados desta moeda para que a gente se sinta menos culpada e que o aleitamento seja visto como algo mais natural. Nem tão glamuroso como mostra o Facebook, nem tão inadequado quanto pensa a sociedade!

Sendo bem sincera, acredito que a sociedade incentiva e até cobra as mães a amamentarem seus bebês recém-nascidos, mas reprime aquelas que desejam continuar até 2 anos ou mais, como preconiza a Organização Mundial de Saúde (OMS). E acho que a comunidade materna na rede idealiza a amamentação e critica demais quem não consegue seguir este caminho. O problema é que a responsabilidade sobre o sucesso da amamentação não pode recair somente sobre a mulher!!!

Para refletir um pouco sobre isso, eu conversei com a Isabela Crivellaro, do blog Tetê Nosso de Cada Dia. Ela é fonoaudióloga e consultora de amamentação. Espero que esta reflexão ajude a tornar a amamentação como algo mais natural e admitir que é um processo de altos e baixos.

A Isa está lançando nesta semana um curso de aleitamento materno que pode fazer toda a diferença entre conseguir e não conseguir amamentar. Ela explica, em aulas online, tudo sobre pega perfeita, rotina de amamentação, posicionamento do bebê… As vagas ficam abertas até domingo (7), e quem comprar por este link vai ganhar de bônus a aula introdutória do Curso de BLW do Maternamos e o Diário de BLW do Maternamos, um ebook para você se planejar durante a introdução alimentar do seu bebê. 

Vamos ver o que ela disse?

Maternamos –  Isa, na gestação e nos primeiros meses de vida, as informações que as gestantes e mães recebem sobre amamentação costumam ser positivas e não é difícil encontrar vozes favoráveis ao aleitamento de recém-nascidos. No entanto, com o passar do tempo, o aleitamento começa a encontrar mais e mais resistência dentro das famílias e na sociedade, principalmente quando o bebê tem mais de um ano. Por que isso acontece? Por que o aleitamento só é bem visto nos primeiros meses de vida e depois passa a ser encarado com algo “estranho”? Meu filho tem 1 ano e 3 meses, sigo amamentando, e sinto cada vez mais pressão contrária.

Isa – No meu entender, um dos motivos é o fato de vivermos em uma sociedade que cada vez mais precocemente adultiza suas crianças e que quer, a todo custo, torná-las independentes cada vez mais cedo, sem levar em conta sua maturidade. Dentro desse contexto, amamentar uma criança acima de 1 ano de idade acaba sendo encarado como algo que vai contra essa maré. Eu acredito que o desmame natural e saudável é um processo que tem seu início na introdução da alimentação complementar. O seio e seus inúmeros papéis vão sendo substituídos, aos poucos, na medida em que se observa uma evolução daquela mulher como mãe e daquela criança, que se encontra em franco desenvolvimento físico, emocional e psíquico. Desmamar naturalmente um bebê não significa necessariamente que a mãe deva ficar a margem do processo. A mãe (e as outras pessoas da família também) tem um papel importante no sentido de ensinar a criança também que existe um mundo além do seio, que existem outras formas de consolo e de conexão emocional. Nesse sentido, ter consciência da maturidade do bebê é fundamental, porque é ela que vai determinar em que momento  podemos auxiliar a criança nesse processo gradual.

A recomendação oficial da Organização Mundial da Saúde é de que o aleitamento materno se extenda por dois anos ou mais, sendo exclusivo nos primeiros seis meses. Apesar dessa recomendação, é incomum vermos crianças acima de 2 anos serem amamentadas. Embora muitas vezes esse seja um desejo da mãe, muitas mulheres se sentem pressionadas a desmamar, seja por profissionais de saúde, familiares ou amigos. Além disso, acredito muito também que o marketing agressivo das indústrias fabricantes de fórmulas lácteas infantis e substitutos do leite materno (que atinge não somente a população de maneira geral, mas profissionais de saúde que lidam diretamente com essa população), também se constitui com uma barreira à amamentação e influencia sobremaneira a brevidade do tempo de amamentação que vemos não somente no Brasil, mas no mundo.

Maternamos – Eu acredito profundamente que o amor materno (e de pai também) pode transformar o mundo, ao criar crianças mais felizes. Qual o papel da amamentação neste contexto, em termos da sua importância emocional para mãe e bebê?

Isa – Grande parte das pessoas encara a amamentação única e exclusivamente como alimento (no sentido concreto da palavra) e, portanto, pensam naqueles benefícios que dizem respeito principalmente à saúde física do bebê. Contudo, no meu entender amamentar é algo amplo, complexo, é um relacionamento em constante construção, que envolve cumplicidade e confiança. Amamentar é um ato cultural que envolvemãe e filho e suas repercussões vão muito além do corpo físico. A ciência nos mostra cada vez mais que tanto o contato pele a pele como a amamentação desencadeiam processos fisiológicos que geram bem estar e favorecem a redução do stress. Reduzir o stress na infância significa, acima de tudo, adultos mais saudáveis emocionalmente.

Maternamos – Ao mesmo tempo em que existe uma oposição da sociedade ao aleitamento de bebês um pouco maiores, percebo uma certa idealização da amamentação nas rodas maternas que defendem o aleitamento. Como se amamentar fosse algo sempre incrível e maravilhoso. Você também vê esta polarização? Sempre me senti perdida entre os dois pontos, pois acredito nos benefícios do aleitamento mas não vejo como uma atividade sublime. Vejo como algo muito benéfico e natural, mas muitas vezes é cansativo, desgastante. Pode falar um pouco sobre isso? Será que o que falta é exatamente as pessoas enxergarem a amamentação como algo natural do ser humano?

Isa – Eu vejo a amamentação como um momento de conexão muito forte com um filho, talvez por isso essa idealização. Mas tenho percebido com mais freqüência que as mulheres têm se sentido cada vez mais a vontade pra falar, não somente sobre as delícias, mas sobre as dores do amamentar. Amamentar demanda tempo, disponibilidade física e emocional, demanda entrega e, por isso, não deixa de ser cansativo e desgastante em muitos momentos. E claro, precisamos falar sobre isso também. Acho que uma das principais chaves para o sucesso do aleitamento é justamente as pessoas pensarem que, como todo processo, a amamentação tem seus altos e baixos e, por isso, não é estanque. Embora eu veja as mulheres mais a vontade pra falar sobre isso, vejo também, e isso me preocupa, algo como: se as coisas não vão bem ou se está me desgastando muito, preciso desmamar. A amamentação não se resume em amamentar exclusivamente, em livre demanda e prolongadamente ou desmamar um bebê abruptamente. A vida não é 8 ou 80. É possível fazer um desmame noturno, sem ter de fazer um desmame total, por exemplo. A grande sacada é justamente reconhecermos nossos limites, expectativas e desejos, as necessidades dos nossos bebês e buscar o EQUILÍBRIO entre todos esses fatores.

Maternamos – Junto com a amamentação prolongada, outro tabu é a cama compartilhada. No entanto, acredito que muitas vezes as duas coisas caminham juntas, pois é difícil passar anos levantando da cama de madrugada para amamentar. Você acredita que a cama compartilhada costuma ser benéfica para o aleitamento, ou não necessariamente? Por que tamanho tabu em relação à cama compartilhada?

Isa – A cama compartilhada, principalmente naquelas fases em que há uma demanda grande do bebê com relação ao seio, pode ajudar bastante, principalmente quando pensamos no descanso da mãe, além de favorecer o contato físico, tão importante, principalmente nos primeiros meses de vida do bebê. A cama compartilhada, contudo, exige regras de segurança que não podem, de maneira alguma, ser ignoradas. Acho que o tabu gira principalmente em torno da questão relacionada a intimidade do casal. É claro que a intimidade e o relacionamento entre casais, de maneira geral, não se restringe (ou não deveria) à cama e ao momento da noite, por isso essa é uma justificativa que pra mim não faz muito sentido, mas acho de extrema importância respeitar a dinâmica de cada família. Pra muitos a cama compartilhada funciona, pra muitos simplesmente não.

Maternamos – Que mensagem você gostaria de deixar para mães gestantes que desejam amamentar? De que maneira podem se preparar para a jornada?

Isa – A melhor preparação para a amamentação é buscar informação, formar uma rede de apoio, confiar em si, no seu bebê e na natureza. O empoderamento faz a gente superar qualquer dificuldade. Elas precisam saber que amamentar nem sempre é fácil, mas é muito gratificante. Se dificuldades surgirem, que elas não tenham medo de pedir ajuda de quem realmente esteja comprometido a estarem do lado delas durante nesse processo.

Maternamos –  Acredito que o sucesso da amamentação depende da perseverança da mãe, mas também depende do apoio da família e da sociedade. Na sua visão, quais são os fatores que ajudam ou ameaçam o aleitamento bem sucedido?

Isa – Talvez o APOIO da família e sociedade, juntamente com a informação, seja o principal fator de sucesso quando pensamos em amamentação.  Vejo muitas mães se sentindo culpadas por não conseguirem amamentar, quando na verdade, essa culpa não é delas, não são elas que deveriam carregar esse sentimento. Essa culpa é nossa, como entorno, como sociedade, que não é capaz de dar o suporte necessário a mulher tanto no início, como ao longo do processo de amamentação.

Maternamos – Gostou desta entrevista? Então compartilhe, e não deixe de expor seus sentimentos mais sinceros sobre aleitamento. Só assim poderemos mudar a visão da sociedade sobre este assunto tão importante!

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