Maternamos Sem Neura! Entrevista com a nutricionista Viviane Laudelino Vieira | Maternamos
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Maternamos Sem Neura! Entrevista com a nutricionista Viviane Laudelino Vieira

Muitas vezes a gente segue regras de alimentação infantil sem entender bem os motivos, não é verdade? Afinal, por que não pode dar sal para um bebê em introdução alimentar? E por que o leite de vaca é o vilão da história? E quando saber que o meu bebê está pronto para três refeições por dia?

Hoje eu trago as respostas para estas perguntas! E o melhor, quem responde é a nutricionista Viviane Laudelino Vieira, do blog super conhecido e querido Maternidade sem Neura. Eu adoro este nome! Hoje nós Maternamos sem Neura também! Vamos lá?

Maternamos – Viviane, eu gostaria de saber por que os bebês não podem consumir sal e qual seria o máximo permitido por dia. Você tem alguma dica para as famílias lidarem com esta restrição no BLW, ou a única alternativa é todos se adaptarem ao pouco sal?

Viviane – A recomendação existente é para o consumo de sódio e não para o sal (cloreto de sódio). O sódio é um componente do sal e ele é necessário para qualquer pessoa, inclusive aos bebês. Dos 7 aos 12 meses, um bebê precisa de 370 mg de sódio; até 3 anos, aumenta-se para 1000 mg. Um adulto, por sua vez, precisa de 2,4 g. Muito provavelmente, até o primeiro ano de vida, o bebê consegue atingir tal necessidade por meio do leite materno e da quantidade naturalmente presente nos alimentos. Após isso, já pode ter quantidades acrescidas no preparo dos alimentos. Só comparando a necessidade do bebê com a do adulto, já fica claro que o bebê deverá ter menos acesso a alimentos salgados. O excesso de sódio para o bebê proporciona uma sobrecarga em seus rins, podendo prejudicá-los a longo prazo. Também influenciará negativamente na formação dos seus hábitos alimentares, dado que o bebê acostumará com o sabor salgado desde muito cedo.

Em se tratando do BLW, é importante que, nos primeiros meses, a família se proponha a diminuir a quantidade de sal usada para preparar os alimentos (e casa sinta necessidade, adicione sal no seu próprio prato). É interessante aproveitar esse momento para usar mais temperos naturais que vão realçar o sabor dos alimentos, como ervas, cebola e alho. Porém, mais importante do que cozinhar sem sal é cuidar da oferta de alimentos industrializados nessa idade. Esses produtos, mesmo os doces, contém sódio por normalmente possuírem diversos aditivos, como conservantes.

Maternamos – Sobre o leite de vaca, sabemos que ele não deve ser oferecido para as crianças in natura, como bebida. Mas existe algum problema em incluir o leite de vaca no preparo das refeições, por exemplo, ao fazer uma panqueca ou bolinho sem açúcar? E o iogurte e o queijo, podem ser oferecidos em moderação?

Viviane – Temos diversas questões a ser consideradas aqui. Se tenho um bebê (estou considerando bebê como até o 24º mês) ou criança que é amamentado em livre demanda, ele não PRECISA de leite. Porém, um bebê a partir dos 12 meses PODE já ter contato com o leite ou seus derivados, seja pelo leite fluido, inclusive usado no preparo dos alimentos, iogurte, queijo, manteiga e coalhada. Essa afirmação só não é válida em caso de alergia à proteína do leite ou intolerância à lactose. É importante considerar se esses produtos que enumerei não são adicionados de açúcar (no caso do iogurte ou leite) ou se são fabricados utilizando conservantes, espessantes, saborizantes. A lista de ingredientes desses produtos deve ser isenta ou conter o mínimo de componentes que não são facilmente conhecidos como alimentos. Por exemplo, um iogurte deve conter somente leite e fermento lácteo. Qualquer outro ingrediente que conste no rótulo já não é mais indicado para os pequenos.

Maternamos –  No início da introdução alimentar pelo método BLW, o bebê pouco come e prefere explorar e conhecer os alimentos. Nesta etapa, quantas vezes por dia é interessante oferecer comida? Como saber que o bebê está preparado para receber as 3 refeições principais mais os lanches da manhã e da tarde?

Viviane – Pensando que BLW pressupõe o compartilhamento das refeições da família com o bebê, ele já pode acompanhar o ritmo da família desde as primeiras experiências, ou seja, ela pode estar à mesa e predisposto a comer nas diversas refeições: café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar. Provavelmente, ele não irá comer em todos esses momentos, mas estará se aproximando mais e mais do ato de comer e da comensalidade. Comensalidade é um termo que eu gosto muito de usar e que considero fundamental para todos, incluindo o bebê, por dialogar muito bem com os princípios do BLW. Comensalidade é o comportamento saudável no momento das refeições: o comer à mesa, em um ambiente tranquilo e prazeroso, com pessoas queridas e saboreando os alimentos. Mesmo sem comer, o bebê estará participando de uma experiência muito rica em cada uma das refeições. Além disso, ele começará a ter mais familiaridade com os alimentos e se desenvolverá por ter contato com diferentes tamanhos, texturas, temperaturas, aromas e sabores.

Maternamos – Antes dos 9 meses (aproximadamente), as crianças têm dificuldade de manusear alimentos pequenos, como feijão e arroz, por exemplo. Isso angustia muitas mães, que buscam formas de oferecer estes dois alimentos como bolinhos. Na sua opinião, existe necessidade de adaptar os alimentos que o bebê não consegue comer, ou é melhor esperar o desenvolvimento da criança para oferecer certas comidas? Tenho a impressão de que estas adaptações geram mais ansiedade do que soluções, o que você acha?

Viviane – A adaptação, sendo algo natural, pode ser bem-vinda. Um exemplo, eu posso fazer bolinhos de arroz algumas vezes para toda família comer. Mas, não preciso fazer todos os dias. Se tenho um alimento mais difícil para o bebê, posso optar por ter um similar mais fácil. No caso do arroz, posso ter também pedaços de mandioca.

Maternamos – Viviane, acredito que a Introdução Alimentar gera muita ansiedade e insegurança nas mães. O BLW, por um lado, exige paciência para respeitar o ritmo do bebê. Ao mesmo tempo, as restrições de alguns alimentos para os bebês deixam as mães apreensivas sobre o que oferecer. Na sua visão, qual é a chave para uma introdução alimentar mais tranquila? O que a mãe/pai precisa saber para viver uma IA sem neura?

Viviane – Você já falou: é o respeito! Temos dificuldade, enquanto adultos e pais, de perceber como subestimamos nossos filhos: nunca estamos convencidos de que eles pararam de comer porque estão satisfeitos. Sempre achamos que eles precisam de mais e, de forma quase imperceptível, insistimos de forma irritante. Coloque-se no lugar do bebê, com um adulto tentando te empurrar um pouco mais de comida. Isso é muito chato e vai criar antipatia pela comida e/ou pela pessoa. Por que bebês e crianças comem melhor na companhia de outras crianças e, inclusive, nas escolas? Porque com as crianças, eles terão um reforço positivo e, em um contexto coletivo, ele não será o centro das refeições porque os cuidadores precisam dividir sua atenção entre muitos. Então, relaxe! Respire fundo e confie! A grande maioria dos bebês saudáveis responde ao sinal de fome. Se ele não comeu no almoço, comerá algo um pouco mais tarde! E, se mamar, ele estará recebendo energia e diversos nutrientes. Introdução de alimentos é uma transição que leva meses, começando em um cenário em que o leite é o único alimento, até que ele se torne mais um dentre diversos alimentos.

Maternamos – Obrigada, Viviane!

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Viviane Laudelino

Viviane Laudelino

 

Perfil – Viviane é mãe da Manuela e nutricionista com mestrado e doutorado pela Faculdade de Saúde Pública da USP na área de nutrição infantil. É pesquisadora e supervisora do CRNutri (FSP/USP). Atende gestantes, bebês e mães com foco como conselheira em amamentação e para orientação pro BLW em consultório particular na zona oeste de São Paulo. Depois de se tornar mãe, tornou-se militante na defesa da amamentação e da saúde materno-infantil e hoje é sócia-proprietária do Maternidade Sem Neura, com fanpage no Facebook. É autora do livro infantil “Por que alimentar-se bem?”.

Comments ( 5 )

  • Viviane

    Obrigada pela oportunidade! Um beijo grande!

  • Juliana

    Adorei a entrevista! Acalma o coração da mamãe em início de ÍA ❤️

    • maternamos
      Maternamos

      Que bom Juliana, acho que isso é o mais importante de tudo na IA! Corações tranquilos! Beijos e obrigada

  • Lidiane

    Ótima entrevista. Muito esclarecedora!

  • TATIANE

    Nossa muito boa entrevista. Esclarecedor em alguns pontos.

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