O bebê nunca esquece! Maternamos entrevista a psicóloga e coach materna Denise Delmonte | Maternamos
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O bebê nunca esquece! Maternamos entrevista a psicóloga e coach materna Denise Delmonte

“Não precisa se preocupar, depois o bebê não vai lembrar mesmo!”

Já ouvi estas frases algumas vezes, mas sempre fiquei com a pulga atrás da orelha. Será que o bebê não lembra de nada mesmo? Será que todos os nossos esforços como mães e pais são um pouco em vão, já que ficarão relegados ao esquecimento?

E o pior é que quando tentamos nos lembrar de como era nossa vida quando éramos bebês, não conseguimos lembrar de quase nada! E aí?

Conversei com a psicóloga e coach materna Denise Delmonte, do site Insights Maternos, para entender melhor este assunto. E ela explicou que sim, as lembranças ficam guardadas na mente da pessoa por toda a vida, e influenciam fortemente o funcionamento do sistema límbico, que é a parte do cérebro que gerencia as emoções. Interessante!

Aproveitei para tirar outra dúvida com a Denise: adianta dar bronca em um bebê? Confira na entrevista abaixo tudo que ela explicou para a gente!

Maternamos – Denise, qual é a importância dos primeiros anos de vida na formação da personalidade de uma pessoa? O primeiro ano é o mais marcante ou o segundo também?

Denise Delmonte – A formação da personalidade é influenciada pela herança genética, pelo ambiente intrauterino, pela cultura e pelas experiências do nascimento e dos primeiros anos de vida. Desde o nascimento o cérebro do bebê recebe informações do meio em que vive. Todas as impressões que de suas experiências sensoriais e emocionais ficam gravados em uma memória pré-verbal. Essa memória não será tão facilmente acessível, mas constitui uma base para suas próximas experiência de vida que ele irá receber.

Especialmente a experiência da nutrição é muito importante para a formação de vínculos e será como uma matriz de desenvolvimento para suas relações com outras pessoas e situações.

No primeiro e no segundo ano a criança vive um processo que chamamos de fusão. Nesse processo o bebê sente como se a mãe fosse uma extensão de seu corpo. Por isso a ausência materna é vivida de forma muito intensa. Ao longo dos primeiros anos, gradualmente, a criança vai se separando psicologicamente até ter a noção de que é uma pessoa diferente da mãe.

Nos primeiros 6 meses, a recomendação de amamentação exclusiva tem relação com a nutrição física. Mas esquecemos do que está sendo nutrido psicologicamente. A mãe, neste primeiro ano de vida, é o mundo da criança. Por isso, amamentação prolongada também é importante para o desenvolvimento psíquico da criança.

Ela permite que esse processo gradual de separação psicológica tenha um suporte físico. Muitas pessoas se preocupam em “não deixar a criança dependente”. Só que acontece que a criança é dependente. Ela é! Tentar acelerar essa separação pode fazer com que ela se fixe na falta que foi oferecida cedo demais. E isso sim, alimenta a dependência. Quanto mais a criança recebe o que precisa na hora em que pede (estamos falando de afeto e incluindo o alimento neste pacote), mais ela se sente impelida às próximas etapas de seu desenvolvimento, conquistando assim, sua independência segura.

Maternamos – Muitas pessoas acreditam que a pessoa não se lembra do que ocorreu no início da sua vida. Isso é verdade? De que forma a vivência do bebê fica impressa na memória emocional? 

Denise Delmonte – As experiências do início da vida não são organizadas de forma simbólica pelo bebê. Como assim? Como são vividas numa fase pré-verbal, não são nomeadas. Desta forma, o tipo de memória armazenado é de mais difícil acesso. Então, não “lembramos”. Mas elas estão ali. Gravadas desde o nascimento. Estudos sobre a formação da consciência tem sugerido que essas experiências, armazenadas em uma memória que nem sempre conseguimos acessar, influenciam fortemente o funcionamento do sistema límbico, que é a parte do cérebro que gerencia as emoções.

No início da vida, o cérebro infantil é muito mais plástico do que será depois na fase adulta e irá se moldar de forma a estruturar uma verdadeira base para as experiências que virão depois.

Maternamos – O que os pais devem fazer para garantir um começo de vida que seja um solo fértil para um ser humano feliz?

Denise Delmonte – Estar disponível e sensível para compreender e atender as necessidades do bebê. Ninguém nasce pai ou mãe de repente. Compreender o que o bebê precisa é um aprendizado. É a construção de uma forma de comunicação única. É preciso paciência, inclusive consigo mesmo.

Essa abertura e compreensão sobre o atendimento das necessidades é importante para que o bebê aprenda que o mundo é um lugar seguro. Esse aprendizado pré-verbal, sensorial, emocional é para a vida inteira. Saber que vai pedir e ser atendido faz do bebê um adulto que consegue reconhecer suas próprias necessidades e que pode se dar o direito de ser feliz. Além de reconhecer as necessidades dos outros e ter empatia. Sabe aquela história de criança “mimada”? Esqueça! Quanto mais atendido o bebê for, mais independente e seguro se tornará no futuro. 

Maternamos – E o papel da mãe especificamente? Qual é o peso da maternagem nesta fase da vida?

Denise Delmonte – Especialmente a mãe vai estar numa parceria que chamamos de fusão emocional. O bebê percebe a mãe como parte de seu corpo e se nutre física e emocionalmente dela. Gradualmente, o bebê vai descobrindo outros elementos no mundo como o pai, as outras pessoas e objetos. A presença da mãe, nessa fase, é sinônimo de um ambiente seguro e farto de tudo o que ele precisa. Na falta da mãe, o bebê é capaz de desenvolver uma relação fusional com outro adulto de referência. Mas para que isso aconteça, existe um corte que ele vai viver de forma marcante. Ele vai sobreviver? Provavelmente. Mas não sem ter vivido uma profunda dor de perda. Saiba mais aqui.

Maternamos – Gostaria que você falasse também sobre o que deve ser evitado. Por exemplo qual pode ser a consequência de deixar o bebê chorando?

Denise Delmonte – Deixar chorar, infelizmente, ainda é uma técnica de condicionamento muito divulgada. Apesar de estudos neurobiológicos já comprovarem os prejuízos desta prática. Ela funciona porque o bebê aprende que não vai receber o que precisa e desiste. Mas até que isso aconteça, ele vivencia um nível extremo de estresse tóxico ao seu organismo. Um estresse capaz de prejudicar seu desenvolvimento afetivo e cognitivo. Além disso, ele desaprende a identificar suas necessidades, busca substitutos ou se refugia na fantasia se desconectando de si e reconhecendo o ambiente como árido e hostil. Apresentamos aos nossos filhos um mundo em que eles não merecem ter suas necessidades atendidas. Isso é fator de risco para o desenvolvimento de muitos transtornos psíquicos, dentre eles, a depressão.

Maternamos – Existe uma visão de algumas pessoas de que o bebê precisa ganhar “bronca” quando se comporta de forma que desagrada os pais. Eu creio que não funciona e que faz mal. Estou certa? Você pode explicar um pouco esta questão de dar bronca em bebê?

Denise Delmonte – Sim, está certa. Primeiro existe a questão do desenvolvimento cognitivo do bebê e sua capacidade de compreender as relações entre o que fez e aquela “bronca”. Na verdade, ela acaba desenvolvendo uma associação aversiva entre o que fez e a punição. Mas isso é temporário pois não existe uma compreensão da mensagem que a bronca pretende passar. A criança só vai começar a entender e cumprir regras por volta dos 3 anos. Além disso, o bebê não consegue controlar seus impulsos sozinho. Por isso, é importante oferecer recursos mais amorosos para que ele se proteja de perigos, por exemplo. Distrair o bebê com outros estímulos é uma boa saída. “Explicar” amorosamente, por mais que ele não entenda completamente também é uma forma de estabelecer cumplicidade e contribuir para o desenvolvimento da linguagem. Muitas vezes, a bronca é mais uma expressão de frustração do adulto do que um instrumento de disciplina eficaz.

Maternamos – Eu acredito que o amor dos pais tem o poder de transformar o mundo, ao criar pessoas mais felizes. Você concorda? De que forma podemos semear este futuro em nossas crianças?

Denise Delmonte -Eu concordo que tem o poder de transformar o mundo no sentido de formar adultos capazes de dar e receber amor. As relações com a mãe, num primeiro momento e logo mais com a presença do pai, são matrizes para o desenvolvimento das relações futuras daquele bebê. Podemos, sim, por meio de uma educação amorosa e empática, entregar à sociedade pessoas seguras, independentes, confiantes, capazes e solidárias.

Maternamos – Obrigada, Denise!

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Denise Delmonte com sua filha Lara

Denise com sua filha Lara

 

Perfil – Denise Delmonte é mãe da Lara, autora do blog Insights Maternos e escreve sobre humanização da assistência ao nascimento, psicologia perinatal e maternagem consciente. Psicóloga clínica com formação em coaching, atuou por 12 anos no segmento de saúde suplementar, trabalhando com consultoria em gestão de pessoas. Quando Lara nasceu, fugiu da louca vida em São Paulo buscando a simplicidade do interior e a possibilidade de viver uma maternidade com mais presença. Foi tentar a sorte no sertão do Piauí, onde trabalhou no CREAS prestando assistência a pessoas com direitos violados. Hoje atua como psicoterapeuta e modera a Ciranda Materna de Picos, grupo de mães que se reúne para apoiar e promover uma maternagem mais ativa e consciente.

Comment ( 1 )

  • Maria

    Percebo que as pessoas confundem super proteção com dar colo, Daí levam o colo para o lado negativo. Conheço mães, por exemplo, que demoram a colocar o bebê no chão, por medo de que ele se machuque e daí o bebê, apresenta um certo atraso no desenvolvimento, e fazem isso com o argumento de que elas não vão negar colo para o bebê. Dar colo é estar junto, próximo, brincar no chão junto a seu bebê, atender quando ele chora, esticar o tempo q o bebê fica com a mãe depois da mamada, estar disponível!
    Algumas pessoas também não sabem lidar com a criança que em um ambiente estranho ficam na “barra da saia da mãe” e insistem para que a criança/bebê vá brincar, se distrair, interagir. Elas não respeitam o comportamento da criança. Um adulto que chega num lugar estranho e não se sente à vontade não se comportaria de maneira tão diferente, por que as pessoas não aceitam as crianças como elas são?
    É uma necessidade de cobrar independência de quem é tão dependente…

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