Você e o seu bebê são um só – Maternamos entrevista PsiMama | Maternamos
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Você e o seu bebê são um só – Maternamos entrevista PsiMama

Nanda Perim, psicóloga e autora do PsiMama

Nanda Perim, psicóloga e autora do PsiMama

Se você já teve a oportunidade de ler algum texto da psicoterapeuta argentina Laura Gutman, pode ter ficado impressionada com as coisas que ela diz. Mas se você nunca ouviu falar, calma que eu te explico! A Laura mostra em seus livros o quanto nós influenciamos os nossos filhos com os nossos próprios sentimentos e também com o nosso discurso cotidiano. 

Na visão da Laura, as mães têm o poder de mudar o mundo quando conseguem se vincular emocionalmente aos seus bebês. Ela diz, na lata, que grande parte dos problemas do mundo são causados por falta de afeto na infância.

Ela também explica que os filhos, no começo da vida, ficam em um estado de fusão emocional com as suas mães. Ou seja, por um bom tempo, os dois são apenas um em termos emocionais. Para entender melhor, sugiro que você leia o livro A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra e o Poder do Discurso Materno.

Recentemente, descobri o blog PsiMama, da Nanda Perim, que é uma fã da Laura Gutman e fala bastante sobre a sua obra. Inclusive, outro dia ela conheceu a Laura pessoalmente (INVEJA! rss).

Fiquei com vontade de conversar com ela sobre as mensagens da Laura e também sobre o aspecto psicológico do método Baby Led Weaning (BLW), e o resultado está aqui!

Maternamos – Nanda, você fala bastante sobre a obra da Laura Gutman no seu site, poderia explicar um pouco o que mais te encanta na obra dela?

PsiMama – A autora Laura Gutman tem uma visão bem natural da maternidade, no sentido que ela nos enxerga enquanto mamíferos humanos, e propõe essa abordagem no parto, puerpério e criação. Quando entramos em contato com o nosso lado primitivo e mamífero, percebemos que muitos dos padrões que hoje nos guiam foram estabelecidos na direção oposta, e por isso acabam sendo tão doloridos.

Outro ponto que me encanta é o fato de sua teoria ser toda baseada em sua experiência de atendimentos individuais, portanto, em milhares de casos, de forma empírica. Dentro disso, é muito interessante saber que ela compreende a infância analisando do ponto de vista dos adultos que atende, mas não com relação à seus filhos apenas, mas sim com as infâncias desses adultos. Isto é, o resultado da criação à longo prazo.

Quando trabalha com adultos, percebe o quão desacolhidas e sozinhas estão as crianças. E o por quê! Que é outro ponto fundamental que me faz apaixonar cada vez mais por sua teoria: o fato de que ela compreende e analisa toda essa realidade dentro dos padrões de nossa sociedade patriarcal, com conseqüente repressão sexual, que molda de forma transgeracional as mulheres, e portanto, as parturientes, as mães e avós que somos. Ela fala, então, como, devagar, podemos nos desfazer desses padrões.

Maternamos – Qual mensagem da obra da Laura você gostaria que chegasse a todas as mães?

PsiMama – Nós mulheres, com séculos de patriarcado e repressão sexual nas costas, aprendemos a ser desconectadas de nós mesmas e de nossas crias. Aprendemos a não dar colo, não atender ao choro, não dormir junto, dar leite de vaca, ignorar a criança quando ela chora… e todos esses padrões que nos foram ensinados tiveram como consequência mães e crianças muito desconectadas. E nós podemos mudar isso, tanto entrando em contato com a criança que fomos, como reanalisando bem a forma como nos relacionamos com nossos filhos. Além disso, é muito importante compreender que grande parte do que acontece com nossos filhos parte de nós! Ou seja, é primordial estar em constante auto-análise, por que os choros, adoecimentos e dificuldades dos nossos filhos podem, sim, estar muito relacionados à nossa saúde emocional. Isto é, aos nossos choros contidos, nossas dificuldades negadas, nossos adoecimentos ignorados. E olhar pra fora será sempre mais fácil, mas não o melhor. Olhe pra si, analise-se, e então compreenderá seus filhos com outros olhos!

Outra mensagem SUPER interessante, que não posso deixar de frisar é: seus filhos te conhecem como ninguém. Eles viveram dentro de você, te observaram por muito tempo, e conhecem cada expressão, cada reação. Além disso, dominam mais do que nós a linguagem não verbal. Portanto, eles sabem o que se passa em nossos corações! No entanto sabem muito de como nos sentimos, mas pouco do porquê. Laura Gutman reforça a frase de Françoise Dolto:

“Os seres humanos têm a mesma capacidade compreensão do dia que nascem ao dia que morrem”. Então, desde recém nascidos, precisamos ter o hábito de conversar com eles. Muito. E sobre absolutamente tudo que se passa em nossas vidas!

Maternamos – Gostaria de falar um pouco sobre introdução alimentar. Qual é a sua visão sobre o método BLW e a possibilidade de a criança fazer sua auto-regulação alimentar?

PsiMama – Bom, isso, na verdade, começa muito antes, na livre demanda! Quando o bebê tem a liberdade de mamar o quanto quiser quando quiser, ele aprende a mamar o tanto que precisa, quando precisa. Uma vez que tem a segurança de que terá leite novamente assim que pedir, aprende que não há desespero e que pode mamar até sua saciedade plena.

No entanto, esse aprendizado precisa ser mantido na introdução alimentar, e o BLW é excelente por ser guiado pela criança. O BLW é um método que propicia o desenvolvimento (ou a manutenção) da auto-regulação, uma vez que o bebê é o condutor da própria alimentação (assim como na livre demanda). Por terem os pedaços de comida nas mãos, aprendem de forma lúdica e no próprio tempo a explorar os sentidos, conhecendo diferentes texturas, gostos, formatos. O que também auxilia no desenvolvimento psico-motor, uma vez que manipula livremente os diferentes pedaços, aprendendo a segurar firme e à guiá-los até a boca. Por ser uma atividade curiosa e divertida, também relaciona a alimentação de forma positiva, tornando-a agradável e sem estresse.  

Além disso, vale ressaltar que a introdução alimentar acontece na fase oral do bebê (fase em que a exploração do mundo inclui levar objetos à boca), além de ser época de dentinhos e coceirinhas nas gengivas, o que torna esse momento de exploração um momento também para aliviar e explorar a boca, importante conhecimento para essa fase. Por fim, por respeitar seus limites e seu tempo, o bebê – assim como na amamentação em livre demanda – aprende a comer até estar saciado, sem forçar nem “querer terminar o que começou”, o que é super saudável. Nós chamamos essa capacidade de auto-regulação, que é um importante aliado na luta contra a obesidade e as desordens alimentares.

Quando optamos pela papinha, acabamos perdendo a oportunidade de ensinar tanto ao bebê, uma vez que quem guia a alimentação e a regulação são os adultos. Além disso, misturam-se sabores e texturas, e o bebê aprende menos os sabores, conhece menos as cores e formatos. Até por que, cortam-se os pedaços do tamanho que se imagina adequado, dando a quantidade que se imagina ser suficiente, no ritmo do adulto, no tempo do adulto.

Vale dizer que a alimentação complementar tem como objetivo complementar o leite, sendo que a nutrição e alimentação principal do bebê continua sendo o aleitamento. Isso se dará até que o  próprio bebê demonstre diferente. Então, se o bebê come pouco e mama muito, faz parte e é super esperado.

Outra observação importante é entender que o estômago do bebê é do tamanho de seu punho, isto é, muito pequeno. Não tenha a expectativa que ele coma grandes quantidades.

Maternamos – Mesmo que a família não opte pela total liberdade do BLW, quais cuidados deve tomar na introdução alimentar para que seja um processo tranquilo para a criança?

PsiMama – A primeira coisa que precisamos ter em mente na introdução alimentar é que, até um ano de idade (aproximadamente) a alimentação é complementar. Ou seja, o aleitamento é, ainda, a principal fonte nutricional do bebê, e portanto é muito mais uma atividade lúdica interessante e curiosa do que uma refeição. Compreendendo isso, e que isso se faz necessário para que desenvolva interesse pela comida, compreendemos também que não deve ser movida por metas, quantidades nem tempo, por que é uma expectativa irreal e pode gerar muita frustração.

E, quando movida por essas expectativas e frustrações, pode se tornar um momento muito estressante para todos, e o conseqüente desinteresse por parte do bebê. Além disso, é importante compreender que o corpo da criança sabe o quanto precisa, em seu pequeno estômago, e quando é a hora de parar. Então se, após um tempo, a atividade deixa de ser interessante e a criança quer fazer outra coisa, basta alternar com outros objetos interessantes e, depois, se quiser, retomar para ver se ainda tem fome. Se não, então deixe para depois. Com o tempo, a refeição vai tomando naturalmente a dimensão de refeição como conhecemos, e isso não é necessário forçar.

Laura Gutman diz “cada etapa vivida plenamente termina plenamente e evolui para outros interesses”. O mesmo vale para colo, amamentação, comer à mesa, comer com talheres, desfralde, etc.

 Maternamos – As famílias, muitas vezes, acabam rotulando as crianças em relação aos hábitos alimentares (por exemplo chamando alguém de comilão ou chato para comer ). Você poderia falar um pouco sobre isso, sob o ponto de vista do poder do discurso materno que a Laura Gutman destaca em sua obra?

PsiMama – Muitas vezes, acabamos por nomear em nossos filhos características baseadas em nossa experiência no momento, com nossas percepções e atravessada por nossas expectativas, e acabamos por criar algo ali que não existia, ao invés de lidar com o que realmente ali existe!

Por exemplo, o adulto faz um prato, e tem a expectativa que a cria coma aquilo tudo. Mas o corpo dela diz que aquilo é demais, e que na verdade precisam de menos da metade do prato. O adulto, frustrado, cansado de sua jornada de trabalho e temeroso pela saúde de seu filho, diz “você precisa comer muito para ficar forte! Se você comer pouquinho, vai ficar fraquinho”. Essas nomeações são identificadas pela criança, e muitas vezes passam a ter aquele peso. A criança pode passar a comer muito por que não quer ser fraca, ou pode passar a se sentir uma criança fraca, pode até mesmo carregar esses conceitos consigo a vida inteira, sendo que se resumem em como aquele adulto se sentia, naquele momento específico de sua vida, baseado em suas falsas expectativas, e pouco tem a ver verdadeiramente com a criança, que só estava usando de sua auto-regulação.

Laura Gutman reforça que, como adultos, precisamos reaprender a observar a situação verdadeira que ali se coloca ao invés de nomeá-la em nosso filhos. Precisamos estar em contato com nossas verdades interiores, para que tenhamos a compreensão do que é nosso (a expectativa de comer o prato todo, por exemplo) e o que é deles (não come pouco, mas sim o necessário). Assim, quando verdadeiramente se apresentar uma situação em que se trate de algo da criança, saberemos e poderemos, então, acolhê-los e ajudá-los! E, para isso, precisamos estar em contato com nossos instintos, ao invés de duvidar deles.

Ela diz: “obrigamos as crianças a mudar cada pequena atitude espontânea e assim garantimos a desconfiança em relação às próprias intuições”

No fim das contas, se resume à ter mais contato consigo mesmo, compreender as próprias verdades interiores, e abrir espaço para que nossos filhos também tenham esse contato consigo mesmos. Além de promover amor próprio e carinho consigo, aprendem a tê-los também pelo próximo, e assim se tornarão adultos e pais mais conectados. E isso MUDA o MUNDO!

Maternamos – Muito obrigada, Nanda!

E você, gostou desta entrevista? Então compartilhe!

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